Romance inaugural de Rachel de Queiroz, publicado em 1930, quando a autora contava 20 anos de idade. Nascida em Fortaleza em 1910, vivenciou o contexto de sua obra, sendo o título referência a seca de 1915 que ocorreu no nordeste brasileiro.

oquinze
Traço de Shiko

Integrou o panteão do romance nordestino, inaugurado por José Américo de Almeida, seguido por Jorge Amado, Graciliano Ramos, e José Lins do Rego. Como disse Antônio Torres, Rachel foi um assombro, marcando seu nome na literatura regional brasileira.

“O Quinze” é um livro curto, de prosa simples, viva, concisa. O enredo se passa entre Quixadá e Fortaleza, trata do duelo entre o homem e a terra. O romance ocorre em dois planos: a relação afetiva entre Conceição e o primo Vicente; e a fuga de Chico Bento e sua família da seca.

Resumo:

Conceição e Mãe Nácia vivem numa fazenda chamada Logradouro, próximo a Quixadá. Seu primo Vicente também possui terras na região. Com a vinda da seca, Conceição convence Mãe Nácia a deixar Logradouro e pegar um trem para Fortaleza; enquanto Vicente decide permanecer e cuidar do gado e de suas terras. Com forte crítica social, “O Quinze” não cai no reducionismo da crítica de classes. O personagem Vicente é proprietário de terras e retratado de forma generosa por Raquel de Queiroz, homem de honra e respeito. O que é posto em questão é o drama da terra.

No outro núcleo, o vaqueiro Chico Bento, sem meios de manter sua família, é forçado a abandonar a fazenda onde trabalhava e atravessar o sertão junto de sua família para fugir da seca e da fome. Diferente de Conceição e Mãe Nácia, que tinham condições sociais melhores, tiveram que cruzar o sertão a pé. Sem vitimismo, pelo contrário, Rachel de Queiroz retrata a valentia do nordestino. Em situação extrema, distante de qualquer tipo de dignidade, Chico Bento luta contra a miséria da seca. Em cena marcante mata uma cabra para dar de comer aos seus filhos, descobrindo em seguida que a cabra tinha dono. A cena que segue é do proprietário da cabra humilhando Chico Bento e retomando as carnes da cabra morta, entregando apenas as tripas ao vaqueiro.

“Dentro da sua perturbação, Chico Bento compreendeu apenas que lhe tomavam aquela carne em que seus olhos famintos já se regalavam, da qual suas mãos febris já tinham sentido o calor confortante.

E lhe veio agudamente à lembrança Cordulina exânime na pedra da estrada… o Duquinha tão morto que

já nem chorava…

Caindo quase de joelhos, com os olhos vermelhos cheios de lágrimas que lhe corriam pela face áspera, suplicou, de mãos juntas:

– Meu senhor, pelo amor de Deus! Me deixe um pedaço de carne, um taquinho ao menos, que dê um caldo para a mulher mais os meninos! Foi pra eles que eu matei! já caíram com a fome!…

– Não dou nada! Ladrão! Sem-vergonha! Cabra sem-vergonha!

A energia abatida do vaqueiro não se estimulou nem mesmo diante daquela palavra.

Antes se abateu mais, e ele ficou na mesma atitude de súplica.

E o homem disse afinal, num gesto brusco, arrancando as tripas da criação e atirando-as para o vaqueiro:

– Tome! Só se for isto! A um diabo que faz uma desgraça como você fez, dar-se tripas é até demais!…

A faca brilhava no chão, ainda ensanguentada, e atraiu os olhos de Chico Bento.

Veio-lhe um ímpeto de brandi-la e ir disputar a presa, mas foi ímpeto confuso e rápido. Ao gesto de estender a mão, faltou-lhe o ânimo.

O homem, sem se importar com o sangue, pusera no ombro o animal sumariamente envolvido no couro e marchava para a casa cujo telhado vermelhava, lá além.

Pedro, sem perder tempo, apanhou o fato que ficara no chão e correu para a mãe.

Chico Bento ainda esteve uns momentos na mesma postura, ajoelhado.

E antes de se erguer, chupou os dedos sujos de sangue, que lhe deixaram na boca um gosto amargo de vida” .

vítimas da seca
Retirantes vítimas da seca

A miséria e a fome produzidas pela seca, retiram a dignidade do homem, forçando-os a fugirem da seca. A família do retirante, ao chegar em Fortaleza, dirigiu-se aos Campos de Concentração. Locais de apoio as famílias vitimadas pela seca, também conhecidos como Currais do Governo. Em um desses locais encontraram sua comadre Conceição, que trabalhava ajudando as vítimas da seca. Ela consegue uma passagem de trem para que Chico Bento e a família viagem para São Paulo, tentar melhor sorte.

 

A autora

Rachel de Queiroz foi romancista, contista, cronista, tradutora e dramaturga. Atuou também como jornalista por longos anos. Na revista O Cruzeiro, começou no fim da década de 1940 com um impasse sobre o título da coluna que iria escrever na última página. Millôr sugeriu “Última página” mesmo, e assim ficou batizada a coluna que Rachel escreveria por ininterruptos trinta anos. Foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras (1977), vindo a falecer em 2003.

Raquel de Queiroz

 

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