Reencontro inesperado é uma crônica belíssima. “A mais bela história do mundo”, segundo Ernst Bloch.

velhinhos amor
Aquilo que a terra concedeu mais uma vez, não irá pela segunda vez guardar.

Seu autor, Johann Peter Hebel, foi um escritor extraordinário, digno de estar entre os grandes da literatura alemã. Nascido em 10 de maio de 1760 na Basileia e falecido em 22 de setembro de 1826 em Schwetzingen, foi um escritor alemão, poeta e teólogo evangélico oriundo da região do sul de Baden. No Brasil foi pouco traduzido, tornando-se conhecido por meio do ensaio de Walter Benjamin sobre “O narrador”. Conheci-o assim. Descrito neste ensaio como o “incomparável Hebel”, Benjamin argumenta que “a arte de narrar está em vias de extinção. São cada vez mais raras as pessoas que sabem narrar devidamente. É como se estivéssemos privados de uma faculdade que nos parecia segura e inalienável: a faculdade de intercambiar experiências”. Hebel é um narrador admirável, deixo a crônica “reencontro inesperado” para conhecerem melhor este autor.

Reencontro inesperado

Johann Peter Hebel

 

Em Falun, na Suécia, beijavam-se, há bons cinqüenta anos ou mais, um jovem mineiro e sua jovem e bela noiva. E ele disse: “No dia de Santa Lucia nosso amor será abençoado pela mão do sacerdote. Então seremos marido e mulher e construiremos nosso próprio ninho de amor. ” – “E Paz e Amor lá viverão”, disse a bela noiva com um doce sorriso, “pois você, você é tudo para mim, e sem você eu prefiro estar num túmulo a estar em outro lugar. ” Mas, antes do dia de Santa Lucia, quando o padre, pela segunda vez, os chamou à igreja e aos fiéis perguntou: “Alguém tem algo a dizer que impeça a união desse casal? ”, anunciou-se, então, a morte. Assim, quando, na manhã seguinte, o jovem rapaz saiu de casa em seu traje negro de mineiro, vestido como sempre com sua mortalha, bateu como de costume à janela de sua noiva, disse-lhe bom dia, porém, não mais boa noite. Ele nunca mais voltou da mina, e ela que bordava, naquela manhã, um cachecol negro com barras vermelhas, como presente de casamento, deixou de lado o cachecol, chorou por seu amado e nunca mais o esqueceu. Enquanto isso, a cidade de Lisboa foi destruída por um terremoto, a Guerra dos Sete Anos entre Inglaterra e França e seus aliados chegou ao fim, o Imperador da Áustria Franz o Primeiro morreu, a Ordem Jesuíta foi revogada, a Polônia dividida, a Imperatriz da Áustria Maria Theresa morreu, Struensee, médico iluminista da corte dinamarquesa, foi decapitado, os Estados Unidos tornaram-se um país livre, a coligação entre franceses e espanhóis não foi capaz de conquistar Gibraltar, os turcos, na Hungria, encurralaram o general Stein na Caverna Veterani, o Imperador da Áustria Joseph também faleceu, o Rei da Suécia Gustavo conquistou a parte russa da Finlândia, a Revolução Francesa e sua longa guerra começaram, o Imperador da Áustria Leopoldo II também foi para o túmulo, Napoleão conquistou a Prússia, os ingleses bombardearam Copenhague e os lavradores semeavam, ceifavam e colhiam. O moleiro moía, o ferreiro martelava, e os mineiros cavavam em busca de metais em sua mina. No entanto, em Falun, antes ou depois do dia de São João, quando os mineiros iam começar a cavar uma abertura entre dois eixos, bem a uns trezentos metros do solo, eles avistaram o corpo de um jovem, bastante embebido em sulfato de ferro; e quando o retiraram dos escombros e sulfatos ferrosos, viram que o corpo estava incorruptível e inalterado, o que permitia reconhecer facilmente sua feição e idade. Era como se tivesse falecido há uma hora ou como se tivesse adormecido enquanto trabalhava. Porém quando o trouxeram à luz, não havia mais ninguém que pudesse reconhecê-lo, pai e mãe, parentes e conhecidos, há muito já haviam falecido, ninguém conhecia o jovem adormecido ou algo do seu infortúnio, até que apareceu a ex-noiva do mineiro, que um dia descera para o seu turno e nunca mais voltara. Grisalha e encurvada, chegou à praça, apoiando-se em uma bengala e logo reconheceu seu noivo; e demonstrando maior sentimento de alegria que de dor, debruçou-se ao lado do corpo do amado. Assim, quando se recuperou de uma longa e forte agitação emocional disse “é o meu amado”, e por fim, “por quem sofri por cinqüenta anos, e que Deus me permite ver mais uma vez, antes que eu mesma parta. Oito dias antes de nosso casamento, ele foi para debaixo da terra e nunca mais voltou. ” Os corações de todos ao redor foram tomados de tristeza e lágrimas quando viram a ex-noiva, agora idosa e cheia de rugas, e o noivo ainda com sua beleza jovial e também como, depois de cinquenta anos, a chama do amor da juventude mais uma vez despertara em seu peito. Mas o amado nunca mais abriria a boca para sorrir ou os olhos para reconhecê-la. Finalmente, ela solicitou aos mineiros que o levassem ao seu pequeno quarto, sendo o jovem o único bem que a ela pertencia e sobre ele tinha direito, até seu jazigo estar preparado no cemitério, e os mineiros voltarem para buscá-lo. Então, abriu e retirou de uma caixinha o cachecol de seda negra com a barra de listras vermelhas, colocou-o em volta do pescoço do amado e depois o acompanhou vestida em sua roupa dominical, como se fosse o dia de seu casamento e não do funeral de seu amado. Quando o colocaram no túmulo ela disse: “Agora repouse um ou mais dez dias nesse frio leito nupcial, e não se aborreça. Resta-me pouco para fazer e já volto, e em breve o dia renascerá. Aquilo que a terra concedeu mais uma vez, não irá pela segunda vez guardar”, disse ela, enquanto se afastava e o olhava mais uma vez.

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Esta crônica faz parte das onze histórias de almanaque (Kalendergeschichten), escritas por Hebel. Benjamin afirma que “a arte de narrar está definhando porque a sabedoria – o lado épico da verdade – está em extinção”. A pobreza de experiências resulta na falta de sabedoria e na incapacidade de narrar. Segundo Benjamin, isso se deve ao advento da imprensa na sociedade burguesa, que trouxe o excesso de informação. “Uma sociedade constituída sob o signo da informação é uma sociedade na qual a experiência é impossível”. “Quando a informação e a opinião se sacralizam, quando ocupam todo o espaço do acontecer, então o sujeito individual não é outra coisa que o suporte informado da opinião individual”. “Quer dizer, um sujeito fabricado e manipulado pelos aparatos da informação e da opinião, um sujeito incapaz de experiência”. Busquemos em Hebel a faculdade de narrar e experimentar as coisas da vida.

 

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