Paris é uma Festa (Civilização Brasileira, 1978, 204 páginas), do escritor norte-americano Ernest Hemingway, chegou em minhas mãos no tempo certo. Encontrei-o na Biblioteca Municipal de Limeira, e como já havia lido O Velho e o Mar e gostado muito, resolvi folhear suas primeiras páginas. Ganhou-me na contracapa, onde Hemingway escreve a um amigo:

Se você teve a sorte de viver em Paris, quando jovem, sua presença continuará a acompanha-lo pelo resto da vida, onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa móvel.

De Ernest Hemingway a um amigo, 1950.

Hemingway

É essa também a Paris de Woody Allen no filme Meia Noite em Paris (2011). Do charme dos cafés, da intelectualidade envolvente e vida noturna agitada; a Paris dos anos 20. Certamente, Allen inspirou seu filme na Paris descrita por Hemingway. A cidade que gestou Ulisses, de Joyce; O sol também se levanta, de Hemingway; O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald. A cidade que acolheu a “Geração Perdida”, termo atribuído a Gertrude Stein e descrito por Ernest Hemingway neste livro. Conta que Miss Stein precisava de reparos em seu carro e o levou junto na oficina mecânica. O funcionário da oficina não se mostrava competente no conserto do Ford de Miss Stein, e foi severamente repreendido pelo gerente do estabelecimento, que disse ao rapaz: – “Vocês todos são uma geração perdida”! Miss Stein gostou da expressão e replicou: – “É isso mesmo que vocês são, todos vocês, essa rapaziada que serviu na guerra. Vocês são uma geração perdida”. Hemingway que estava ao seu lado e também havia servido na guerra, retrucou com ela, o que nada adiantou, Gertrude Stein era teimosíssima. Mas a expressão nascia aí e ao contrário do que indica o nome, foi composta por nomes que hoje fazem parte do cânone da literatura, como o próprio Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Sherwood Anderson, T. S. Eliot, James Joyce, entre outros.

Geração Perdida

Hemingway, em Paris, com a "Geração Perdida".

A obra cobre o período de 1921 a 1926. Ernest começou a escrever este livro em Cuba, no outono de 1957 e terminou na primavera de 1960, pouco antes de sua morte. Trata-se da vida do jovem Hemingway em Paris, um tempo de dificuldade financeira, “especialmente se compramos quadros em vez de roupas”, como fazia Hemingway. Havia largado seu trabalho de jornalista no Canadá, para investir em sua carreira de escritor em Paris. Convive nesta época com a chamada “Geração Perdida”, detalhando no livro essa relação. Teve larga amizade com Scott Fitzgerald, dizia dele: – “Seu talento era tão espontâneo como o desenho que o pó faz nas asas de uma borboleta”. Passou também horas de boa conversa na rue de Fleurus, 27, endereço de Miss Stein. Havia ela dito no começo de suas amizades que tinha lido seus contos e gostado de todos, exceto um: Lá em Michigan. – “É bom – disse ela. – Isso não se discute. Mas é inaccrochable. Significa que é como um quadro que um pintor pinta e depois não tem coragem de pendurar quando faz sua exposição. E ninguém o comprará porque não poderá pendurá-lo também”.

É provável que Stein o caracterize como impublicável devido ao apelo sexual do conto. Particularmente, considero impublicável o que é ruim, mas Hemingway preferiu não discutir, nem explicar o que estava procurando fazer sobre diálogos. Queria ele personagens e descrições plausíveis, de gente real, alguém que se pode tomar um café na padaria. Suas descrições são vivas, porém discretas. Economiza no uso das palavras e seus diálogos são diretos.

A Paris de Hemingway é uma festa da qual só participamos pela leitura de seu livro. Disse Hemingway: – “Neste livro, eu quis retratar a Paris dos meus primeiros tempos, quando éramos muito pobres e muito felizes”.

Paris é uma festa

Pray for Paris

O que era aquela Paris? Multicultural, acolheu gerações de estrangeiros. Embora exista um xenofobismo velado, que inspirou Tzvetan Todorov (Búlgaro radicado em Paris) a escrever A conquista da América e tratar da questão “do outro”, seria o recente atentado, questão de alteridade? Como fica o multiculturalismo frente aos radicais islâmicos? Por hora, oremos por Paris, pois como disse Hemingway, “Paris vale sempre a pena e retribui tudo aquilo que você dê”.

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